Ao todo, 16 pessoas foram alvos de mandados de prisão temporária durante a Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas que operam o transporte público no estado de São Paulo. Dessas, 10 já foram presas e passam por audiência de custódia nessa sexta-feira (18/9). Outros seis seguiam foragidos, entre eles, o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil).O nome de Leite é citado em áudios trocados entre José Daniel Satilite, apontado como operador e laranja do PCC, e o advogado Cícero José dos Santos Filho, também investigado por elo com a facção. De acordo com relatório da Polícia Civil, a conversa se deu pouco tempo depois da Operação Fim de Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo.No diálogo, Satilite diz a Cícero que havia comentado com outro advogado sobre a situação da UPBus, empresa que teve o contrato suspenso pela Prefeitura de São Paulo após aquela investigação, e diz que seria necessário envolver o ex-parlamentar para resolver a questão.“Eu comentei com o Doutor Milton (Milreu; o advogado), referente à substituição da UPBus pela nossa empresa lá. Querendo ou não, vai envolver o Milton Leite, né? Falei: ‘Ah, doutor, então beleza. Qualquer coisa, a gente dá um toque no Milton Leite também, né?’”, disse Satilite.A Polícia Civil afirma no documento que, embora Leite não esteja dentre os contatos de José Daniel Satilite, seu nome teria surgido justamente no contexto da investigação da Operação Fim da Linha, quando foi apontado por policiais militares como o verdadeiro dono da empresa Transwolff. Tanto a empresa quanto Milton Leite negam o vínculo.A investigação ainda aponta que, no diálogo com o advogado, Daniel demonstra “extrema preocupação” em dar ciência a Milton Leite dos fatos envolvendo a UPBus. No mesmo diálogo, Daniel diz que, antes de efetivar uma eventual troca de empresas, teriam que “iniciar a conversa com o ‘Levi da São Paulo Transportes’”.Levi é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans. “Chamou a atenção que os maiores e mais recentes escândalos envolvendo a infiltração do crime organizado no transporte público da capital, se deu na gestão de LEVI DE OLIVEIRA à frente da SPTrans e de MILTON LEITE no comando da Câmara dos Vereadores da Capital”, diz um trecho do relatório policial.De acordo com a polícia, muito embora não seja interlocutor de Satilite, Levi e o “laranja” do PCC tiveram encontros periódicos com a única finalidade de tratar de interesses da facção relacionados a empresas de transportes, especialmente com a deflagração da Operação Fim da Linha.Entenda a participação de cada um dos alvos no esquemaAndré Cassali: Conhecido como “irmão Beringela” e “Tiago”, seria um dos responsáveis pelo setor financeiro do PCC e encarregado pela logística do transporte de drogas da fronteira com a Bolívia até a Baixada Santista. É interlocutor direto de José Daniel Satilite.Carla de Paula Muller: É esposa de Antônio Jose Muller Junior, o “Granada”, um dos líderes do PCC, preso na Penitenciária Federal de Brasília. Atuava na transmissão de recados de interesse da facção ao marido.Cicero José dos Santos Filho: É integrante do PCC e advogado atuante nos interesses da facção. Usava a conta bancária do escritório para recebimento de valores das empresas investigadas.Claudionor Aparecido Sabino Tomaz: É integrante do PCC e interlocutor direto de José Daniel Satilite, cujos diálogos revelaram uma extensa e nefasta atuação do crime organizado em diversas frentes. Atuou, juntamente com José Daniel, como laranja da empresa Translider, cujo verdadeiro dono era Paulo Korek.Danilo Marco Morgado Silva: Foi candidato à Prefeitura de Praia Grande em 2024 e ficou em 2º lugar na corrida eleitoral, tendo a campanha sido financiada pelo PCC. Atualmente, é candidato a deputado estadual. Foi alvo na operação Decurio, tendo já em seu desfavor um mandado de busca e apreensão.Edivania Arruda Botelho Alves: Também chamada de “Lalinha”, serviu de “ponte” para transmissão de recados de integrantes da facção presos em Presidente Venceslau, onde seu marido, também integrante do PCC, está preso.Edson Antonio de Souza: Conhecido como Peru, atuava intermediando interesses do PCC em procedimentos licitatórios de várias cidades.Eduardo Medeiros: Conhecido como Galo, é integrante do PCC e advogado pessoal de José Daniel Satilite, além de ser dono de empresas de transportes. Atuou juntamente com os faccionados no setor de transportes e em procedimentos licitatórios.José Daniel Satilite: Conhecido como Alemão, é o investigado central da operação. É integrante do PCC e intermediava as negociações com empresários, advogados, políticos e pessoas próximas a políticos.José Ronaldo Alves de Sales: Atuava no meio político e no ramo de transportes, auxiliando em trâmites licitatórios com a ajuda de agentes públicos ainda não identificados pela investigação.Julio Salvador Filho: Diretor da A2 Transportes. Decidia, juntamente com Paulo Korek, se liberava o pagamento ou não aos laranjas (Satilite e Claudionor).Levi dos Santos Oliveira: Ex-presidente da SPTrans. Teve encontros periódicos com José Daniel Satilite, com a única finalidade de tratar de interesses do PCC relacionados a empresas de transportes, especialmente com a deflagração da Operação Fim da Linha.Milton Leite da Silva: Ex-vereador. É citado nominalmente por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC. Também há declarações de policiais militares de que seria o verdadeiro dono da empresa Transwolff.Milton Mello Milreu: Advogado e membro do PCC. Também atuaria na captação de empresas para que a facção assumisse o controle.Paulo Sirqueira Korek Farias: Empresário, gestor de empresas de transportes, tais como Translider e A2, e “testa de ferro” do PCC. Atua no ramo de transportes administrando interesses do crime organizado. Também é presidente do Esporte Clube Água Santa.Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira: Empresário e braço direito do advogado Milton Mello Milreu.Relembre a operaçãoA investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior”. No município de São Paulo, ao menos 12 das 22 empresas de transporte coletivo seriam, em tese, controladas pelo PCC. Essa infiltração, segundo as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais. Leia também São PauloQuais são as 12 empresas de ônibus da capital suspeitas de elo com PCC São PauloPCC nos ônibus: Milton Leite e outros 5 alvos ainda não foram localizados São PauloEmpresa de ônibus alvo de operação pode ter elo com Marcola, diz polícia São PauloNunes quer afastar sócios de empresa de ônibus suspeita de elo com PCC Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.As facilidades no setor, conforme indica a investigação, seriam obtidas em troca do financiamento de campanhas eleitorais de candidatos e cooptação de agentes públicos.O dinheiro do crime seria injetado no setor de transporte por meio da negociação de veículos e compra/venda de frotas inteiras de ônibus, com pagamentos de comissão aos laranjas, além da transferência de valores entre as contas das empresas e dos investigados.A investigação também aponta a existência de um núcleo chamado “Sintonia dos Gravatas”, composto de advogados e operadores ligados à facção, que teriam o papel de intermediar negociações contratuais, atuar em licitações, gerenciar repasses de comissões e disponibilizar contas bancárias e escritórios para reuniões de integrantes do esquema.“Em síntese, os elementos descritos pela Autoridade Policial procuram demonstrar que a atuação investigada extrapolaria o tráfico de drogas, abrangendo a utilização de empresas de transporte, pessoas interpostas, contratos públicos, articulações políticas e estruturas da área da saúde, além de evidenciar suposta divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos, com atuação coordenada em benefício do PCC”, diz um trecho do documento.O que dizem os envolvidosO Metrópoles tenta contato com os investigados. Por telefone, Milton Leite negou envolvimento no esquema e destacou que se apresentará às autoridades dentro de 24 horas. A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que foi surpreendida com a notícia da prisão e que aguarda acesso aos autos para adotar as medidas cabíveis.Em nota, a Prefeitura de São Paulo anunciou que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida adotada para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.A prefeitura informou ainda que abriu processo pela Controladoria-Geral do Município contra as empresas e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.








