Brasília recebeu, nesta quinta-feira (1º), uma celebração especial pela 5ª edição da Semana da Língua Neerlandesa 2026, promovida pelas Embaixadas da Bélgica, dos Países Baixos e do Suriname, em colaboração com a Universidade de Brasília (UnB). Com o tema “Juntos em Neerlandês”, o encontro reuniu integrantes do corpo diplomático e convidados para celebrar uma língua que conecta os três países, apesar de suas diferentes histórias, culturas e realidades geográficas.Entre as principais presenças estiveram o embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert, o embaixador dos Países Baixos, Aldrik Gierveld, e o embaixador do Suriname, Ike Desmond Antonius, representando três nações ligadas pelo uso da língua neerlandesa.A presença conjunta dos chefes de missão reforçou o caráter diplomático e multicultural da iniciativa, além de evidenciar o papel da língua, da educação e da cultura como instrumentos de aproximação entre povos.A participação da Universidade de Brasília acrescentou uma dimensão acadêmica à celebração, aproximando o universo universitário das representações diplomáticas e estimulando o interesse pelo idioma e pela diversidade cultural das sociedades que o utilizam.A Semana da Língua Neerlandesa vai além da celebração de um idioma. A iniciativa evidencia como uma língua compartilhada pode atravessar continentes, conectar diferentes identidades e contribuir para o fortalecimento das relações culturais, acadêmicas e regionais.Fabiana Ceyhan — Embaixador, vivemos em um mundo cada vez mais conectado, no qual algumas línguas, como o inglês e o espanhol, têm grande projeção internacional. Nesse contexto, qual é a importância de preservar e promover o neerlandês, tanto como instrumento de comunicação quanto como expressão cultural e de identidade dos povos que o utilizam?Embaixador Chris Hoornaert — Acho que é uma necessidade no mundo sermos capazes de falar uns com os outros. Por isso, não é ruim existirem algumas línguas que são conhecidas mundialmente. Mas a especificidade dos países e das populações, a preservação de sua própria identidade, história e cultura, também está ligada à língua. Portanto, não podemos perder isso.Mesmo que uma língua não tenha importância mundial, ela será importante quando o mundo vier nos visitar. Como disse o meu colega Aart, as pessoas vêm nos visitar e um dos elementos da nossa cultura será justamente a língua. É algo específico.É sempre um prazer perceber como as coisas estão conectadas e podem ser semelhantes. O neerlandês, por exemplo, eu diria que está entre o alemão e o inglês.Fabiana Ceyhan — Em inglês, utiliza-se o termo “Dutch”. É esse o nome da língua?Embaixador Chris Hoornaert — “Dutch” é a palavra utilizada em inglês. Nós falamos “Nederlands”, ou neerlandês.Fabiana Ceyhan — E em quantos países o neerlandês é falado?Embaixador Chris Hoornaert — Nos Países Baixos, na Bélgica e no Suriname. Mas, quando olhamos para a história, vemos que as fronteiras também mudam. Foi por isso que mencionei em meu discurso que, às vezes, pessoas são perseguidas porque falam uma língua diferente.Nós, por exemplo, também tínhamos o neerlandês no norte da França. Em determinado momento, porém, houve a ideia de construir um Estado centralizado, com uma única cultura. Dialetos e línguas regionais, como aqueles próximos do occitano ou do neerlandês na região de Flandres, acabaram perdendo espaço.Há essa concepção de que reunir todos em torno de uma única língua e de um único sistema seria melhor.Também mencionei isso porque ainda existem países onde as pessoas não têm liberdade para falar sua própria língua. E isso é uma questão cultural. A cultura nos fortalece. É como acontece com nossas famílias: cada família possui hábitos específicos dos quais se orgulha. Uma cidade também pode ter algo especial. Até a comida faz parte disso.Fabiana Ceyhan — Claro. Tudo isso faz parte da cultura.Embaixador Chris Hoornaert — Exatamente. É tudo sobre cultura. E, por isso, também é uma questão de respeito por aqueles que são diferentes.Quando falamos de uma língua, falamos igualmente das diferenças e da diversidade existentes dentro dela. E isso não é algo ruim.Fabiana Ceyhan — Bélgica, Países Baixos e Suriname também trabalham conjuntamente para preservar e promover o neerlandês. Essa celebração reúne os três países todos os anos?Embaixador Chris Hoornaert — Aqui fazemos isso com os três embaixadores, mas nossos governos também trabalham juntos. Temos um tratado internacional sobre o neerlandês e sobre sua preservação.Nossos ministros da Cultura e da Educação já se reuniram mais de cem vezes para discutir como estimular nossa língua, como promovê-la e como garantir sua continuidade. Portanto, a língua também nos une.É muito positivo observar, por exemplo, como o neerlandês conseguiu sobreviver e se desenvolver no Suriname, provavelmente recebendo influências diferentes de outras línguas. Na Bélgica, certamente temos maior influência do francês, enquanto nos Países Baixos existe uma influência muito forte do inglês.Mas também existe um sentimento de pertencimento conjunto, de estarmos unidos. E há a questão do respeito: o mundo exterior deve respeitar aquilo que somos, mesmo que sejamos apenas um pequeno grupo.Fabiana Ceyhan — Podemos dizer, então, que a língua é também parte fundamental da identidade de um povo.Embaixador Chris Hoornaert — Sim. E devemos sempre respeitar as diferentes identidades e as diferentes culturas.Às vezes nos esquecemos disso. Quando voltamos mil ou dois mil anos na história e observamos diferentes culturas, percebemos que elas também possuíam línguas diferentes. Tudo começa também pela língua, pela capacidade de nos comunicarmos.E mesmo que não seja necessário voltar tanto no tempo, encontramos muitos exemplos interessantes dessa relação entre língua, cultura e identidade.Fabiana Ceyhan — Muito obrigada, embaixador.






