Andreza Matais

Lobista havia se oferecido para ajudar a elevar repasses; Ministério da Saúde diz que aumento seguiu critérios técnicos

Eduardo Militão
28/09/2026 04:03
Arte/Metropoles
A lobista Roberta Luchsinger se ofereceu para ajudar a elevar os repasses federais de saúde para Goiânia. Seis meses depois, o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, enviou a ela a portaria que elevou em R$ 77 milhões o teto de repasses para a prefeitura, mostram mensagens de celular obtidas pelo Metrópoles. O envio ocorreu depois de encontro entre os dois, 17 minutos depois de o documento ter sido assinado pela então ministra Nísia Trindade.
Os valores foram elevados na gestão de Rogério Cruz (Solidariedade, ex-Republicanos). Hoje a prefeitura é comandada por Sandro Mabel (União). O município não prestou nenhum esclarecimento mesmo depois de ser procurado durante dois dias.
Como mostrou o Metrópoles, a lobista recebia comissões para prestar auxílio a clientes governamentais, como a prefeitura de Goiânia e o governo de Maranhão. Não há registro de contrato dela com os governos; os valores eram pagos até por empresários fornecedores de governo. Um deles foi denunciado no orçamento secreto, o empreiteiro Eduardo “DP” Barros.
O Ministério da Saúde afirmou que ampliou o teto de Média e Alta Complexidade (MAC) pois ele “estava represado há anos” e era preciso reforçar a assistência hospitalar. O aumento de verbas ocorreu em todas as capitais e estados do país “sem distinção”. No entanto, Goiânia não estava entre as capitais que receberam os maiores aumentos (veja mais abaixo).
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No domingo (27/9), o Metrópoles pediu uma entrevista a Swedenberger Barbosa. Sua defesa reiterou uma nota divulgada no dia anterior em que ele afirma que, em sua gestão, “as transferências de recursos a estados e municípios seguiram os critérios técnicos e legais que orientam a atuação da pasta, com o mesmo trâmite para todos os entes da Federação”.
Goiânia tinha limite de R$ 279 milhões para repasses
Roberta Luchsinger conversava com o então secretário-executivo da Secretaria de Saúde de Goiânia Quesede Ayres Henrique. Ele buscava mais repasses federais para a saúde no município porque entendia que o saldo disponível estava próximo do fim. Em 18 de outubro de 2023, ela pediu a ele os valores dos tetos de repasse à prefeitura de Média e Alta Complexidade (MAC) e de Piso de Atenção Primária (PAP). O servidor informou a ela que havia um saldo para receber de R$ 175 milhões na modalidade MAC e outros R$ 104 milhões para o PAP (foto em destaque nesta reportagem). “Vou ver isso”, responde Roberta.
Em dezembro de 2023, Roberta pediu a Berger uma reunião com Wilson Pollara, então secretário de Saúde de Goiânia e superior de Quesede. O então secretário-executivo do Ministério diz que, antes da reunião, precisava de “uma conversa séria” e “presencial” com a lobista. Não se sabe se o encontro com Pollara ocorreu.
Berger envia portaria assinada 17 minutos antes
Em 30 de abril de 2024, Roberta afirmou a Berger que estava a caminho de Brasília e que levaria uma “lembrancinha” a ele. O secretário-executivo respondeu que também queria vê-la e “atualizar conversas”. Como revelou o Metrópoles, a lobista afirmava nos diálogos que havia dado uma série de presentes a assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Berger nega tê-los recebido.
Roberta pousou em Brasília às 15h50 e disse que estava com “Fábio” – ela se apresentava como sócia do filho primogênito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luis da Silva, o Lulinha. Às 17h, ela avisou a Berger: “Cheguei”. Às 19h51min, horas depois do encontro, o secretário-executivo enviou à lobista a portaria que aumenta o teto MAC de Goiânia em mais R$ 77 milhões. O documento havia sido assinado pela ministra Nísia Trindade minutos antes, às 19h34min.
Cidade ganhou posto de saúde
Além do aumento do teto de repasses, Quesede também solicitou a Roberta a criação de Unidades Básicas de Saúde (UBS), os postinhos de saúde. Segundo o Ministério, a cidade recebeu apenas uma entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, período em que a lobista dialogava com o secretário-executivo. A pasta afirmou que a construção de postos de saúde é feita de acordo com critérios de edital. Os postinhos foram construídos em 2.053 municípios de todos os estados. Em Goiás, foram 109 unidades em 95 municípios.
Servidores são suspeitos de desviar R$ 10 milhões
A defesa de Roberta Luchsinger não prestou esclarecimentos. Quesede Ayres não respondeu aos pedidos de contato da reportagem. O Metrópoles apurou que estaria fora do Brasil, morando na Flórida, nos EUA. A assessoria do ex-prefeito de Goiânia Rogério Cruz disse apenas “não conhece nem manteve qualquer tipo de contato com a pessoa mencionada [Roberta]”. Ele não aceitou gravar entrevistas.
Quesede e Pollara foram alvos de uma operação da Polícia Civil de Goiás, em dezembro de 2024, que investigou um desvio de R$ 10 milhões na saúde do município. Pollara não foi localizado pela reportagem.
A assessoria do Ministério da Saúde afirmou que a elevação do teto MAC começou em 2023. As solicitações de aumentos são “feitas exclusivamente pelas secretarias de saúde” e “analisadas pela equipe técnica” da pasta. Ao menos dez capitais brasileiras tiveram aumento de mais de 50%. Mas “Goiânia não está entre as que mais receberam”. Lá, os recursos foram destinados a uma “maternidade municipal diante do risco de fechamento e desassistência à população”.
A defesa de Berger não detalhou sua relação com Roberta Luchsinger na definição da portaria que elevou os limites de repasses a Goiânia. Mas disse considerar “preocupante” que “fragmentos de mensagens, vazados de forma seletiva, sejam utilizados para sustentar ilações”.

