A abstenção em S. Tomé e Príncipe: quando o silêncio se transforma em diagnóstico nacional Apesar de há mais de duas décadas longe, tenho acompanhado, com muita atenção, o pulsar político e social de S. Tomé e Príncipe. E penso que a taxa de abstenção que o país acaba de registar — 58,66% nas legislativas de 2026, praticamente igual à abstenção recorde de 58,81% nas presidenciais de julho — não é apenas um número.

É um sintoma. Um espelho que devolve a imagem de uma sociedade cansada, desconfiada e profundamente marcada por desigualdades persistentes. Ao longo dos anos, tenho observado como a vida quotidiana de milhares de santomenses se transformou numa luta permanente: água que falta, luz que falha, hospitais que não respondem, refeições que não chegam. Pierre Bourdieu ensinou-nos que a precariedade material corrói a capacidade de projeção no futuro; e eu vejo isso todos os dias na forma como sobreviver se tornou mais urgente do que votar.

A democracia exige tempo, energia e esperança — e muitos já não têm nenhuma das três. Mas há também uma ferida imaterial que pesa tanto quanto a material. Robert Castel mostrou como a insegurança social fragiliza o vínculo com as instituições; Serge Paugam descreveu esse processo como “desqualificação social”. Em S. Tomé e Príncipe, essa desqualificação traduz-se numa perceção crescente de que o Estado deixou de ser um instrumento de mobilidade social e passou a ser um território disputado por interesses privados.

A comunicação política, frequentemente distante da realidade sociológica do país, reforça essa sensação de desconexão.

E quando a política deixa de falar a língua do povo, o povo deixa de responder. Boaventura de Sousa Santos lembra-nos que a democracia só se sustenta quando produz “esperança concreta”. Eu penso que esta abstenção não é indiferença: é protesto. É desilusão. É o silêncio de quem já não acredita que o voto transforma o quotidiano. E, ao mesmo tempo, é um desafio: reconstruir a confiança, fortalecer as instituições, devolver ao voto o seu valor simbólico e prático.

A democracia só respira quando o povo acredita que a sua voz conta. Hoje, essa crença está ferida. Recuperá-la é, na minha opinião, o grande trabalho nacional que temos pela frente.

Hector Costa, Sociólogo pela Universidade de Coimbra

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